[ Edição Nº 92] – AVISO À NAVEGAÇÃO por Rogério Severino.

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Predadores de floresta atacaram jornalista – o silêncio dos culpados –

          Há duas semanas, em Gâmbia-Setúbal, um operador de câmara, da RTP, foi agredido e jornalistas foram ameaçados na sua integridade física quando exerciam a sua profissão. O trabalho que executavam foi participar numa conferência de imprensa onde a Quercus denunciou o abate de sobreiros, árvore protegida, mas que os interesses dos proprietários falaram mais alto.

A contradição é esta: foi feita participação da agressão à GNR, que esteve no local… mas os sobreiros foram abatidos.

Esta situação, que já não é insólita, vem trazer ao conhecimento público os perigos de uma profissão onde cada vez há mais sacrificados. E vem a propósito que em Dezembro de 1975, aquando da invasão de Timor pela Indonésia, foram assassinados quatro jornalistas australianos e no mês passado mais outro assassínio de um jornalista holandês se verificou; e só referimos Timor, mas basta ver anualmente os Relatórios das Comissões de Direitos Humanos para se saber quantos jornalistas são assassinados. No caso em presença, em Gâmbia, a cinco quilómetros de Setúbal, a situação poderia ter sido mais grave e tudo porque um operador de câmara fazia o seu trabalho.

Mas o que pretendemos pôr em causa nesta crónica é a forma displicente com que as organizações do Estado, através do Ministério do Ambiente, tratam estas situações, e neste caso não entendemos a posição da Direcção-Geral das Florestas. Ou será Direcção-Geral Contra as Florestas? A situação é bem clara: quando a Quercus levantou o problema do abate dos sobreiros, comunicou àquela Direcção-Geral que se limitou a levantar um inquérito; só que enquanto decorriam todos os trâmites burocráticos os sobreiros foram sendo abatidos sem nenhuma providência cautelar. E tudo também sob o olhar cúmplice da Câmara Municipal de Setúbal, que nestes casos (vide situação também recente em Azeitão, com outras árvores) tapa os olhos com os dedos abertos. E agora, por muitas multas que se apliquem a quem abateu os sobreiros, de nada serve porque o objecto da ilegalidade foi concretizado: os inquéritos e as multas de nada servem porque os sobreiros já estão abatidos.

E até nem temos muitos dados para esclarecer o papel da Junta de Freguesia da zona, porque também sabia do abate. Ou seja, sabia a Direcção-Geral, a câmara Municipal, a Junta de Freguesia, mas ninguém teve a firmeza de obstar a que o abate prosseguisse. Até parece que estamos no Brasil, com a luta de Chico Mendes que acabou por ser morto às mãos dos grandes agrários que fizeram das florestas desertos, mas depois como (lhes) convém… foram absolvidos.

E há uma interrogação que necessariamente temos que colocar: de que serve incutirmos aos nossos jovens a sensibilização para preservarem o ambiente, se depois lhes damos os maus exemplos de deixar abater os sobreiros, espécie protegida? E que lhes dizemos? Que o processo contra o abate está a decorrer? Sim, mas de que serve se as árvores foram abatidas? E o desaparecimento de uma espécie arbórea protegida não justifica a alternativa do parque de estacionamento de automóveis que ali vai ser construído. Trata-se de um parque, de uma empresa de capitais espanhóis e italianos, que vem para o nosso país abater as nossas árvores com o silêncio cúmplice de várias entidades pois o parque vai fazer-se mas os sobreiros já lá não estão.

Em nossa opinião, por aquilo que destruíram, a Câmara Municipal de Setúbal não deveria consentir que a mesma empresa que destruiu um bem público fosse ali construir fosse o que fosse, mas o dinheiro das licenças, fascina; e depois todas as empresas vêm com a frase mágica: “é para criar postos de trabalho”, o que no fim nunca acontece.

No nosso país a culpa morre sempre solteira e o silêncio do Ministério do Ambiente, através da Direcção-Geral de Florestas, que teve perfeito conhecimento do abate e consentiu no mesmo, deveria ser objecto de um inquérito através do Ministério Público e da intervenção do Provedor de Justiça, pois por mais alta que seja a multa (e isto se forem multados) os sobreiros já lá não estão; e é bom que saibamos que a empresa vem para Portugal montar um parque automóvel, mas para isso destruiu o nosso património contando com a cumplicidade de uma série de entidades. E até a GNR viu o abate e não interveio, pois em situações destas não são necessários mandatos, já que a destruição do património florestal obriga a uma intervenção imediata.

Aguardamos agora a posição da Câmara Municipal de Setúbal sobre se vai ou não licenciar o parque automóvel da tal empresa espanhola-italiana que destruiu uma vasta área de sobreiros.

Imaginarão os leitores o que seria se uma empresa portuguesa fosse para Espanha ou Itália derrubar árvores que naqueles países fossem protegidas? Quando se derrubasse a primeira árvore, as autoridades impediam de imediato a continuação. Mas nós, neste Portugal dos Pequeninos, continuamos a baixar-nos, nem que para isso haja que sacrificar o património florestal.

Esperamos agora a celeridade do jornalista agredido e que apresentou queixa na GNR. E ainda bem que os jornalistas ainda vão tendo um papel de denúncia, pois caso contrário os predadores – aliás, os criadores de empregos invisíveis – teriam desbastado tantas árvores quantas aquelas que servissem os seus interesses.