[ Edição Nº 105] – “O Diário de Lina” – parte I.

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Edição Nº 10503/01/2000
“O Diário de Lina” – parte I (por Salvador Peres)
Produção de Arte Dabliu, Produtos Culturais, Lda.
10 de Dezembro

(O céu está cinzento; a minha alma também)

Meu querido Diário,

Consultei, logo pela manhã, o meu horóscopo:

“Instabilidade emocional, mente confusa, mas a vida amorosa compensa tudo”, começava. E depois: “Os virgens de 25”, que é o meu caso, “tendem a iludir-se no trabalho, o que causa problemas”. Mente confusa tenho-a eu há muito, bem o sei; instabilidade emocional, também. O corpo é que paga, claro, e nisso saio à minha mãe, que sofreu na pele a má cabeça que sempre teve. O que não tenho, nem nunca tive, foi uma compensação amorosa. Diz a voz popular que a esperança é a última coisa a morrer, mas acho que já lhe fiz o funeral ainda em vida. A verdade é que os virgens de 25, nos quais me incluo, pois faço anos a 25 de Agosto, tendem a iludir-se no trabalho e não só.

No amor ainda é pior. Sonho acordada a toda a hora. Sonho com um homem charmoso, alto, atlético, cavalheiro, daqueles que aparecem página sim, página não, na Máxima, na Mulher Moderna e na TV-Guia. Mas não sei onde param esses deuses de papel, que não me calha nenhum em sorte. Só me aparecem homens casados, carregados de filhos e ávidos de afecto e de sexo clandestino, que se queixam de ter mulheres frias, feias e chatas. Não dei conta que algum deles fosse capa da Máxima, ou desfilasse numa passarela envergando os trapinhos do Augustus ou da Fátima Lopes…

Falando de coisas mais agradáveis. Já tenho telemóvel e estou ansiosa por receber chamadas. Ontem, na novela da noite, a Magda, a boazinha da fita, ficou noiva pelo telefone. Foi muito romântico. O namorado, o Márcio, marcou-lhe um encontro num centro comercial, à porta do McDonald’s, mas o marmanjo não apareceu. A Magda, possessa, pois era a terceira vez que o Márcio lhe pregava a partida, já tinha combinado pelo telemóvel com o Doriva, um amigo do Márcio que lhe andava a fazer a corte há muito, uma saída para essa noite. Mas era só por pura vingança, é claro, que a Magda não gostava do Doriva, que cheirava mal dos pés, comia hamburgers com cebola e tirava os macacos do nariz em público. Ia já a Magda a caminho do encontro com o Doriva, quando tocou o telemóvel. Era o Márcio. A Magda nem o deixou falar e chamou-lhe de tudo: hipócrita, estúpido, verme, canalha… Márcio deixou-a acabar. Quando ela acalmou, perguntou-lhe: “Queres casar comigo?”. A Magda ficou atarantada e desatou a chorar para o telemóvel, ali, rendida e desamparada, no meio da rua. Depois, para surpresa de Magda, Márcio apareceu-lhe, vindo de um recanto escuro onde se escondera, armado de ramo de flores e anel de brilhantes. Abraçaram-se e beijaram-se intensamente. Foi lindo, lindo! Fiquei toda arrepiada e chorei também, ali, feita parva, a olhar para a televisão. No dia seguinte fui logo a correr comprar um telemóvel, sabe Deus com que sacrifício, que o orçamento anda muito apertado. Mas há que estar preparada para todas as eventualidades. E não seja pela falta de telemóvel que o meu “Márcio” não vá aparecer.

O Camané anda armado em parvo (o Camané é meu amigo de infância e de vez em quando curtimos um bocado). Desde que conheceu a Cátia dá-se ares de importante. Ontem, ao cair da noite, estávamos nós na marmelada no vão de escada do meu prédio, e nisto passou o meu vizinho, o Américo, que mora no quarto andar direito (eu moro no esquerdo). O Américo é casado e passa a vida a atirar-se a mim. Para o chatear, meto-me no elevador ao mesmo tempo que ele e digo para o Camané: “Vamos para o quarto?”. E ri-me. E diz o Camané, a armar-se em engraçado: “Se quiseres vai com o teu vizinho, que não se há-de importar nada de ir para o quarto contigo”. E desatou a rir, deixando-me sozinha no elevador com o Américo. Estás mesmo a ver o que aconteceu, não estás, querido Diário? O Américo viu ali uma oportunidade e atirou-se de cabeça: “Lina, você põe-me louco; Lina, você é linda; Lina, você dá comigo em maluco; Lina, Lina, etc. etc…” E começa a encostar-se. Dei-lhe logo um chapadão. Mas fiquei arrependida. Afinal, o Américo não é má pessoa, gosta de mim e tem cá umas mãozinhas de informático…

(Continua)

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