[ Edição Nº 105] – Governo nomeia Comissão Administrativa para a empresa de fermentos PROPAM.

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Edição Nº 10503/01/2000
25abril2-1041593

MEMÓRIAS DA REVOLUÇÃO
25 anos depois

(Governo nomeia Comissão Administrativa para a empresa de fermentos PROPAM)

Trabalhadores salvam a PROPAM
Comissão Administrativa repõe a estabilidade

jmeha1-6511731           No dia 27 de Dezembro de 1975, o Governo nomeou uma Comissão Administrativa para a PROPAM, uma empresa de fermentos instalada no concelho de Setúbal. Foi o culminar de oito meses de insistências dos trabalhadores junto do Conselho da Revolução e de vários ministérios para salvar a fábrica que a administração queria fechar de vez. Entretanto a greve levou à suspensão dos ordenados, o que provocou uma onda de solidariedade entre os trabalhadores e as empresas da cintura industrial de Setúbal que se mobilizaram para ajudar financeiramente os operários em greve. José Mehá ainda hoje trabalha na fábrica, agora denominada Mauri Fermentos, e foi um dos impulsionadores das movimentações laborais. 25 anos depois, continua a defender que a manutenção da empresa e dos respectivos postos de trabalho deve-se à luta desencadeada por todos os trabalhadores contra o encerramento da unidade fabril.


Setúbal na Rede

– Onde é que estava no dia 27 de Dezembro de 1974?

José Mehá

– Estava na fábrica com os outros funcionários e, nessa altura, estávamos todos envolvidos num processo trabalhoso. Foi a altura em que o Governo demitiu a administração e nomeou uma Comissão Administrativa. Tratou-se de um período muito importante, com os trabalhadores a baterem-se pela continuação da empresa. Nunca quisemos entrar em processos de auto-gestão nem de co-gestão, e a única coisa que fizemos foi tentar que a empresa não fechasse. Esse dia de mudança foi de alguma alegria para os trabalhadores mas também de algumas reservas quanto ao futuro. A época era conturbada e a situação do país era complicada, por isso colocava-se algumas reservas quanto ao que daí poderia advir para a empresa.

SR

– Consideravam que a intervenção do Governo na fábrica não significava, obrigatoriamente, a estabilidade da empresa?

JM

– Sim, a empresa era relativamente nova e mantinha-se numa situação complicada porque tinha muitas dívidas. Como era apanágio das empresas na altura, fazia-se uma empresa, algumas pessoas punham lá dinheiro e se tivesse ‘pernas para andar’ andava. A fábrica foi inaugurada em 1973, dispunha de tecnologia de ponta e as suas perspectivas eram muito boas. Com o 25 de Abril, a primeira reacção da administração foi a de fechar a empresa e, para isso, argumentava com a falta de diálogo com algumas pessoas.

SR

– Essa falha no relacionamento já existia antes do 25 de Abril?

JM

– Sim, verificava-se alguma falta de relacionamento. As coisas eram um pouco difíceis porque, na altura, o administrador delegado era uma pessoa bastante autoritária. Contudo, tem sempre que haver alguém que mande porque, se isso não acontece, as coisas caem por si. Com o 25 de Abril, a preocupação dos trabalhadores centrou-se na empresa porque estranhámos que, numa altura em que o país estava a viver uma situação nova e numa altura m que a empresa estava a andar bem, a administração tivesse decidido fechar as portas. Quando isso aconteceu, os trabalhadores reuniram para descobrir o que se passava e ficámos a saber que havia muitas dívidas à empresa alemã que montou a fábrica. Mas como havia matéria prima, trabalhadores e clientes para fazerem andar a empresa, o pessoal opôs-se ao encerramento e continuámos todos a trabalhar. Andámos por todo o lado, a pedir apoio, quer junto do Conselho da Revolução e do Ministério do Trabalho quer junto dos representantes dos partidos políticos. Como este era um processo diferente dos outros, porque se tratava de uma industria inovadora com muitas potencialidades, através da intervenção da Comissão de Trabalhadores e da ajuda de todos os funcionários da empresa, desencadearam-se contactos com os diversos sectores para tentar resolver os problemas da empresa.

Entretanto, entrámos em greve porque queríamos ter certezas sobre o que estava a ocorrer com a fábrica. Nesta greve fomos ajudados, a nível económico, por trabalhadores de outras empresas da cintura industrial de Setúbal.

SR

– As acções dos trabalhadores conseguiram mobilizar as entidades oficiais?

JM

– Este foi um processo diferente dos outros porque não envolvia a auto-gestão nem a co-gestão, uma vez que os trabalhadores apenas queriam a fábrica a trabalhar para poderem garantir os seus postos de trabalho. Acho que isto fez com que as pessoas se interessassem pelo caso, isto e o facto de não desistirmos de pedir ajuda. Íamos para o Ministério do Trabalho pedir ajuda e, se fosse preciso, estávamos lá um dia inteiro sem almoço nem jantar. Portanto, pressionámos muito as entidades oficiais e isso acabou por dar resultado.

SR

– Durante o processo, que começou logo após o 25 de Abril e terminou me Dezembro, os trabalhadores deixaram de receber os salários?

JM

– Não recebemos nada porque, na altura, a greve representava apenas uma coisa para a administração da empresa: o não pagamento dos ordenados. E cada um foi-se aguentando como pode, tendo inclusivamente os trabalhadores de muitas empresas da região canalizado para aqui dinheiro para nos ajudar. Recordo-me ainda que a solidariedade também envolveu o dinheiro que algumas empresas obtiveram com o Dia de Trabalho para a Nação, tendo essas empresas destinado as receitas esse dia para apoiar os trabalhadores da PROPAM. E esta onda de solidariedade foi muito importante para dar ânimo aos trabalhadores. Embora alguns tenham saído, a maioria acreditou na empresa e lutámos por ela.

SR

– Nesses oito meses de luta, os trabalhadores chegaram a sentir alguma tentativa de manipulação por parte de partidos políticos?

JM

– Nessa altura, era uma situação inevitável. No entanto, a nossa luta não era uma luta política mas sim pela subsistência da empresa. Isso não chegou a verificar-se, embora tenham existido alguns contactos com os diversos partidos, da direita à esquerda, no sentido de nos ajudarem a resolver os problemas que tinham surgido. E as tentativas de levar a luta para um determinado lado política nunca tiveram sucesso na PROPAM precisamente porque a nossa política era apenas a de manter a fábrica a laborar com todos os postos de trabalho. Para além disso, foi bom a fábrica não ter fechado porque, se isso tivesse acontecido o mercado ficaria com alguns problemas, com o monopólio do sector nas mãos da outra empresa existente em Portugal, e isso levaria a um controlo diferente dos preços dos produtos.

SR

– As acções desencadeadas para salvar a fábrica, também contaram com a ajuda dos quadros da empresa?

JM

– Sim, toda a gente estava sensibilizada para a salvação da empresa, desde os operários aos quadros superiores. Por isso, a luta prosseguiu até 27 de Dezembro, onde com a posse da Comissão Administrativa, a empresa começou a viver um período de alguma estabilidade. Ou seja, passou a haver quem representasse a empresa junto das outras entidades e já não eram os trabalhadores a ter que o fazer.

SR

– Como é que surgiu a Comissão Administrativa?

JM

– Tratou-se de um processo pacífico, a Comissão era composta por pessoas que não pertenciam à empresa e cada uma era responsável por diferentes áreas. E os trabalhadores não colocaram quaisquer entraves, porque o que nós queríamos era trabalhar e deixar a comissão gerir a empresa. Mas isto não foi o fim dos problemas, já que, apesar dos esforços da Comissão Administrativa, a empresa manteve um grande passivo. Com o tempo, a empresa cresceu e mudou bastante do ponto de vista tecnológico. Mas isso só ocorreu depois da compra da empresa por um grupo australiano, tendo a fábrica passado a chamar-se Mauri Fermentos.

SR

– 25 anos depois, como é que vê as movimentações ocorridas na empresa?

JM

– Com muita saudade da idade que tinha na altura. Sei que nem tudo foram rosas e admito que tenham sido cometidos alguns erros, mas julgo que o balanço foi positivo. Contudo, não me arrependo de nada e talvez voltasse a fazer o que fiz, mas agora de uma forma um pouco diferente. Ou seja, a época era outra e a euforia também, por isso hoje faria algumas coisas de uma forma mais pensada.

Entrevista de Pedro Brinca
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