[ Edição Nº 106] – CRÓNICAS DA BEIRA-MAR por Raul Oliveira.

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CRÓNICAS DA BEIRA-MAR
por Raúl Oliveira (Jornalista do “Imenso Sul”
e correspondente do Público)

Afinal Havia Outra… (Questão)!

          Não é que o assunto seja propício para brincadeira, antes pelo contrário, mas o trocadilho serve para o assunto que vamos abordar.

O chamado caso “Júdice Fialho”, em que dezenas de trabalhadores ficaram sem receber os seus salários e subsídios diversos no montante de alguns milhares de contos, tem muito que se lhe liga. Não há inocentes no caso, ou melhor, os únicos inocentes e prejudicados são os trabalhadores (como sempre).

A começar pelos sindicalistas, passando pelos autarcas e acabando nos construtores/investidores/especuladores (porque não), é tudo boa gente, não haja dúvidas.

Os primeiros, como lhes convém, cada vez mais necessitados de “mudar” de imagem, “esquecem-se” (muito convenientemente) de coisas importantes, a seriedade, por exemplo, e de vez em quando abusam da demagogia.

Sabendo que o cerne da questão é outro, um “empresário” como há muitos ainda infelizmente no nosso país, que se ausentam muito convenientemente para parte incerta com o resultado do suor dos trabalhadores, e à falta de melhor os sindicalistas “atiram-se” aos empresários (patrões, portanto) mais próximos.

Embora se saiba o caos que impera nos tribunais, pergunta-se porque fogem os sindicalistas de levar o caso ao tribunal, se estão convictos da razão?

Quanto aos autarcas, presentes e passados, à parte a demagogia de “estamos com os trabalhadores” (conversa mole para boi dormir, como dizem os nossos patrícios brazucas) pouco fizeram a sério para resolver, que não é fácil, sabemo-lo.

Como não convém, por vários motivos, alguns deles nada pacíficos, afrontar os construtores, dá-se uma no cravo e duas na ferradura.

Propagandeia-se apoio (verbal) aos trabalhadores e na volta aceita-se “facilitar” a vida aos construtores, até porque a terra precisa de progresso (vulgo, BETÃO).

Tá bem abelha, dirá o patrício alentejano.

Finalmente os inefáveis construtores (imobiliários, já se sabe), como bons negociantes (honra lhes seja feita), aceitam “esperar” três anos (só?) que o caso das indemnizações aos trabalhadores se resolva (beneméritos!) enquanto os terrenos… valorizam (e não é pouco, diga-se de passagem).

Tudo gente inocente e bondosa.

Bom falta o mau da fita!

O tal dito “empresário”, ausente em parte incerta, Brasil, Caraíbas, quem sabe, que também se “esqueceu” de pagar aos trabalhadores, e que nesta altura estará, sabe Deus onde, “trabalhando” outros trabalhadores, porque o homem continua a ser o lobo do homem.

Moral da história: enquanto os trabalhadores não conseguirem força para se defenderem de “empresários” deste calibre (não me perguntem como, que também não sei, mas gostava de saber), continuarão a haver casos “Júdice Fialho”, infelizmente.

E já estamos no terceiro milénio em que apareceu aquele que disse que eramos todos “irmãos” (rica família, não haja dúvida).