[ Edição Nº 115] – Escritor setubalense Ascêncio de Freitas ganha prémio Virgílio Ferreira.

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Edição Nº 11513/03/2000

Com a obra “Reconquista de Olivença”
Escritor sadino ganha prémio Virgílio Ferreira

        Aos 73 anos, o escritor setubalense Ascêncio de Freitas volta a ver reconhecida a sua contribuição para a qualidade literária nacional, desta vez através da atribuição de um prémio promovido pela Câmara Municipal de Gouveia. Mais conhecido noutros pontos do país e no estrangeiro do que propriamente em Setúbal, o autor atribui esse desconhecimento “à falta de uma política cultural da Câmara”.

A obra de ficção, a que deu o nome de “Reconquista de Olivença”, arrebatou o primeiro prémio do concurso literário promovido pela Câmara Municipal de Gouveia e no entender do autor é uma história cheia de nuances absurdas e fantásticas onde se procura desmascarar os dogmas e os preconceitos “em que vivem os jovens na sociedade actual”. É uma visão do escritor setubalense, “uma alegoria subtil” sobre o que considera “a alienação e o absurdo a que as pessoas se entregam”.

Questionado pelo

“Setúbal na Rede” sobre a razão de ser do título “Reconquista de Olivença” num um livro que pretende ser uma abordagem à sociedade e “um combate aos preconceitos e aos dogmas de hoje”, confessa ter-se inspirado na figura do Almirante Pinheiro de Azevedo. Ao iniciar o trabalho, lembrou-se de um episódio “protagonizado por Pinheiro de Azevedo quando quis regressar à política depois de a ter abandonado há uns tempos”. Isto porque “ele reentrou na política com o slogan disparatado da reconquista de Olivença aos espanhóis”.

Autor de sete obras publicadas, Ascêncio de Freitas sente-se elogiado pela atribuição deste prémio, um contributo da Câmara de Gouveia para a literatura que “dentro da mesquinhez e pobreza deste país, ainda representa um bom incentivo”. Avesso ao habitual universo de escritores a que o público está habituado, o autor setubalense confessa que “existem muitas coisas estranhas neste país onde tudo, inclusivamente os media, giram em volta das mesma figuras conhecidas”. São “mesquinhices e provincianismos” nos quais diz não ’embarcar’, mesmo que isso signifique ser “mais conhecido fora do país do que por cá”.

No entanto não deixa de dizer que a falta de conhecimento do público “também passa pela inércia de algumas autarquias” e aponta o caso de Setúbal como “uma Câmara que tem um departamento de cultura que, se calhar, não sabe para que é que ele serve”. Desiludido com a sociedade em que vive, Ascêncio de Freitas conta apenas com as palavras que expressam a sua revolta, por isso não desiste da carreira que iniciou aos 12 anos. Até ao final do ano vai lançar dois livros diferentes do seu habitual: um conto e um romance.

Actualmente bolseiro do instituto Português do Livro e das Bibliotecas através do qual irá escrever um livro sobre Moçambique, onde viveu durante décadas, o autor sadino conta lançar no dia 25 de Março, em Setúbal, a sua mais recente obra sobre aquele país. Trata-se do livro “Na Outra Margem da Guerra”, que se baseia em casos reais para retratar “os crimes cometidos sob a capa da guerra”. Um trabalho que Ascêncio de Freitas recomenda “a todos os que não se contentam com a versão oficial, remoída e mastigada da História”.

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