[ Edição Nº 117] – Ocupação da panificação de Fernão Ferro.

0
Rate this post

Edição Nº 11727/03/2000
25abril2-3053214

MEMÓRIAS DA REVOLUÇÃO
25 anos depois

(Ocupação da panificação de Fernão Ferro)

Ocupação de panificação mostra força popular

LUAR assume-se como braço armado do povo

          Na última semana de Março de 1975, um grupo de elementos da LUAR, acompanhado de populares e vários padeiros, resolveram ocupar as instalações da Panificadora de Fernão Ferro para dar pão aos cidadãos. Uma história de tensões entre a liga e os militares, com o COPCON pelo meio, que 25 anos depois é recordada por Carlos Correia, um dos responsáveis da LUAR na região. Desta liga revolucionária, extinta logo após a aprovação da Constituição, Carlos Correia refere a importância que teve no processo desencadeado após o 25 de Abril, especialmente nas acções de recuo da direita que culminaram no 25 de Novembro. Um golpe direitista de que a esquerda tomou conhecimento a tempo, de tal maneira que a LUAR elaborou um plano em conjunto com os militares, para a criação de uma força de resistência na Serra da Arrábida.


Setúbal na Rede

– Onde é que estava no final de Março de 1975?

Carlos Correia

– Estava em Almada, onde vivia, e estava quase sempre na Clínica da Cova da Piedade que funcionava como um quartel-general da LUAR. Por isso, participei também na ocupação do palacete onde, mais tarde, instalámos a clínica. Aliás, naquela época as ocupações ocorriam com muita frequência, quase diariamente. Só não era quotidiano porque recusávamos fazer as ocupações sem que, primeiro, fossem estudadas e trabalhadas com a população a quem essas ocupações iriam servir e, ao mesmo tempo, que fossem avisados os proprietários das instalações a ocupar.

SR

– Foi isso que aconteceu no processo de ocupação da panificação de Fernão Ferro?

CC

– Sim, tudo começou quando alguns elementos da população vieram falar com responsáveis da LUAR sobre uma panificação existente em Fernão Ferro, que estava pronta há bastante tempo mas que não funcionava. Enquanto isso, as pessoas recebiam o pão vindo de Sesimbra, que era deixado à porta de cada um dentro de sacos. As pessoas não gostavam disso, porque havia falta de higiene, e por outro lado não compreendiam porque é que a panificadora da zona não abria para fazer pão. Pediram ajuda à LUAR e nós entrámos em contacto com os responsáveis da panificação, mas eles não mostraram qualquer abertura porque consideravam que não era rentável.

Perante esta posição, a LUAR reuniu com a população e combinámos ocupar a panificadora. A ocupação ocorreu no final do mês de Março, ao anoitecer, porque estivemos reunidos o dia inteiro para combinar as coisas. Lembro-me que a panificadora ficava do lado direito da estrada em direcção a Sesimbra, e que ali perto havia uma serralharia onde estivemos durante quase todo o dia a combinar a forma de agir. Ao entardecer deslocámo-nos à panificadora, arrombámos as portas e a população entrou com os padeiros, com quem já tínhamos contactado.

Então eles ligaram os fornos e começaram imediatamente a fazer pão. Fez-se uma festa em volta deles, mas por volta das dez da noite apareceu-nos uma força dos Fuzileiros para expulsar a população e a LUAR e isso originou uma situação complicada. O comandante do pelotão entrou, acompanhado do sargento, para falar comigo e pediu-nos para sair. Dissemos que não, porque essa era a vontade do povo, o comandante começou a dizer que também era um homem de esquerda mas que não percebia a razão da ocupação.

Expliquei-lhe que a população queria pão, mas quando eu estava a dizer isto entrou um soldado com a metralhadora apontada e uma pessoa perguntou-lhe: “Ouça lá, se a sua mãe estivesse a ocupar uma padaria, você ia apontar-lhe uma arma?”. Vai daí o soldado respondeu: “A minha mãe não se mete nestas coisas”. Conversa para a aqui e para ali, às tantas eles perguntaram: “Então e se nós abríssemos fogo sobre a população?”. Aí eu respondi: “Abrimos fogo sobre vocês”. Nós tínhamos gente armada à porta da panificadora, em locais estratégicos. As coisas complicaram-se, a tensão aumentou e o comandante ligou para o Arsenal do Alfeite.

Decidimos que não iríamos sair dali e que, se nos atacassem, nós reagiríamos. Isso levou a que o comandante nos pedisse para nos deslocarmos ao Alfeite e então eu pensei que íamos presos. Mas lá fui, acompanhado por um outro elemento da LUAR, para falar com o oficial de dia, o capitão-tenente Viegas. Quando começámos a conversar ele disse: “Eu até nem sou contra as ocupações, pá, mas ocupar padarias?…”. Expliquei-lhe que aquilo era uma panificadora parada enquanto a população estava sem pão, pelo que não fazia sentido ela estar fechada. E disse também que, se os proprietários quisessem alugar as instalações a gente aceitava porque o que queríamos era pôr aquilo a trabalhar.

O oficial de dia, que era uma pessoa de bom senso, disse que ia mandar retirar os militares e que no dia seguinte travava-se do assunto. Concordámos, eles retiraram os militares e nós continuámos dentro da panificação. No dia seguinte fomos convocados pelo COPCON, eu, o Palma Inácio e o Fernando Pereira. Éramos para falar com Otelo Saraiva de Carvalho sobre a situação mas ele não estava porque tinha recebido um chamamento, por isso falámos com o tenente-coronel Baptista. Nesse encontro, estava também o capitão-tenente Viegas e outros dois oficias que eu desconhecia.

Inicialmente a situação era tensa porque diziam que tínhamos feito uma oposição armada às forças da ordem, mas nós explicámos que não porque o que acontecera é que, depois de nos terem ameaçado, apenas dissemos que se a população fosse atacada nós reagiríamos. Aí, o tenente-coronel Baptista perguntou-nos: “Então quantas Forças Armadas há no país?”. “Uma”, respondi eu. Mas acrescentei que se alguém atacasse o povo, o povo defendia-se. Ficámos assim, com as coisas embrulhadas, e decidiu-se aguardar para saber como é que a situação iria evoluir. O que aconteceu é que fui proibido, pelo COPCON, de me aproximar de Fernão Ferro. A partir daí, deixei de saber o que aconteceu.

SR

– Então, afastou-se por completo desse processo?

CC

– Comprometi-me que não aparecia mais na zona e foi isso que fiz. Sei que a panificação continuou a trabalhar durante algum tempo e, entretanto, fiquei também a saber que terão feito um contrato com os proprietários.

SR

– Nessa altura, a LUAR tinha armas e capacidade para ripostar à altura?

CC

– Numa situação pontual, tinha. Em termos genéricos já não. A LUAR era um grupo revolucionário que tinha algumas armas mas não éramos uma força armada. Não éramos o braço armado do PS, como se dizia, mas sim uma liga revolucionária em que se aceitavam indivíduos de todas as correntes políticas. Tínhamos homens que vinham do PCP, uns que eram do PS e outros do MDP, através do qual se deu a minha entrada na política. Portanto, não havia propriamente uma dominância do PS.

O que havia era algumas ligações preferenciais de alguns elementos das cúpulas da LUAR, inclusivamente o Palma Inácio, não propriamente ao PS mas sim a Mário Soares. Eles eram amigos e, como se sabe, Mário Soares foi muito importante nas fugas e no apoio dado a Palma Inácio, e de facto, isto dava-lhes uma proximidade muito grande. Existiam grandes contradições dentro da LUAR, exactamente pelas características que tinha, e em determinada altura começou a alinhar muito mais por uma esquerda revolucionária do que propriamente pelo PS.

SR

– Se a maior parte dos seus elementos estavam, uns próximos do PS e outros próximos do PCP, qual era a razão da existência da LUAR?

CC

– A LUAR nunca teve a pretensão de ser um partido, era uma liga revolucionária que congregava pessoas que estivessem dispostas a arriscar-se na luta armada contra o fascismo. Tanto assim que, numa reunião efectuada após a aprovação da Constituição da República, a LUAR praticamente dissolveu-se.

Foi a última reunião que nós fizemos, uma vez que, com a criação das instituições democráticas, deixava de fazer sentido a existência de uma liga com estas características. Não foi uma dissolução oficial, mas praticamente a partir dessa reunião a LUAR desactivou-se. Algumas pessoas foram para os respectivos partidos, outras deixaram cair as questões políticas e outras ainda, caíram na marginalidade como acontece a todos estes grupos armados.

SR

– Quer dizer que algumas dessas armas ficaram por aí?

CC

– Das que eu tinha conhecimento, não. Foram todas destruídas numa operação a que chamámos Operação Natal. Metemos as armas numa carrinha, depois de as termos embrulhado em papel de Natal, porque naquela altura muitas estradas estavam barradas. Pegámos na carrinha, saímos e fomos destruir as armas. Portanto, aquelas de que eu tive conhecimento foram todas destruídas.

Agora, não sei de outros grupos da LUAR, porque, como liga que era, estava composta pelos chamados grupos autónomos. Por uma questão de defesa, formávamos grupos, pequenas células, onde só um dos elementos é que tinha ligações com os outros. E isto funcionava assim desde antes do 25 de Abril, mais tarde, só depois da revolução, é que eu soube que o grupo a que pertencia tinha ligações com a LUAR.

SR

– Antes do 25 Abril, já existiam armas na LUAR?

CC

– Sim, já havia armas. Não sei como é que elas cá chegaram, entrei no grupo autónomo mais pela função estética e poética da revolução do que propriamente por um grupo já formado. Depois, porque o meu contacto era um amigo em que tinha muita confiança. A estética e a amizade foram as razões que me levaram para aquele grupo autónomo da LUAR. Nunca perguntei como é que as armas chegavam até nós.

SR

– No Hotel do Muxito chegou a funcionar uma espécie de quartel general da extrema esquerda. A liga chegou mesmo a ser um pequeno exército?

CC

– A ocupação do Muxito não chegou a ser comandada pela LUAR. A pessoa que a dirigiu é que sempre se envolveu muito com a LUAR. Nós sempre tivemos algumas reservas quanto a essa situação e nunca estivemos directamente ligados a isso. A LUAR só teve campos de treino, no tempo do fascismo, na região dos Pirinéus.

Aqui, o que acontecia é que qualquer zona servia para treinar, e se não fosse uma área fixa melhor ainda porque não era detectável. No entanto, treinávamos e trabalhávamos por aqui. Não era um exército mas também não era uma milícia, porque esta palavra tem hoje uma conotação diferente. O que a LUAR pretendia, e não quer dizer que o tivesse conseguido, era ser a voz armada do povo. Acho que nunca conseguimos sê-lo, ficámos muito distantes dessa aspiração mas o que importa é que tentámos.

SR

– O que é que lhes faltou?

CC

– Acho que nos faltou mais força, mais organização e mais convicção.

SR

– Não se sentiam um pouco reféns da vontade do povo, como foi o caso da panificação?

CC

– Era esse o nosso maior compromisso, portanto se éramos reféns assumíamos voluntariamente essa posição. Tínhamos uma posição diferente da dos partidos porque não pretendíamos ser a vanguarda ideológica de coisa nenhuma. Apenas queríamos dar o nosso apoio a pessoas que não tinham força, que eventualmente tinham o direito, mas não tinham as capacidades de defesa e de organização. Isso era o que nós dávamos: organizávamo-nos e íamos com as pessoas. Não éramos a vanguarda, mas sim aqueles que acompanhavam. Voltamos a Mao Tse Tung: “o guerrilheiro deve estar para o povo como o peixe para água”.

SR

– É depois do 25 de Abril que a LUAR tem maior força?

CC

– Não, é quando aparece publicamente. Até porque os actos mais importantes ocorreram antes do 25 de Abril, como foi o caso do assalto ao banco da Figueira da Foz, a tentativa de ocupação da Covilhã, devido à prisão de Palma Inácio, e uma série de acções deste tipo até ao 25 de Abril.

Pessoas da LUAR estiveram em desvios de aviões, como foi o caso do avião da TAP que foi desviado por Palma Inácio, na ocupação do Santa Maria esteve Camilo Mortágua, que fez também a ocupação da Torre Bela, uma das ocupações agrárias mais conhecidas do país e que está documentada numa série de filmes ingleses e franceses. De maneira que os actos mais espectaculares da LUAR foram anteriores ao 25 de Abril. Depois disso, a liga funde-se muito mais com a população e com acções como as das ocupações.

SR

– Nunca colocaram a hipótese de a LUAR acabar logo após o 25 de Abril?

CC

– De imediato não, até porque as tensões na sociedade eram muito grandes. Tudo era possível mas nada era garantido. Essa questão pôs-se depois do primeiro governo eleito e da primeira Constituição da República. Aí sim e, de uma maneira quase natural, a LUAR desactivou-se.

SR

– Se a LUAR não tivesse existido, a revolução tinha sido igual?

CC

– Não, porque todos os sistemas funcionam com os elementos que têm. Se à revolução lhe tivesse faltado um dos elementos ela teria sido outra coisa e não esse sistema. Não sei se teria sido melhor ou pior, mas a verdade é que, por exemplo, na questão das ocupações a LUAR deu um passo muito importante e criou precedentes.

E o precedente foi, de facto, a coisa mais importante que fez, quer na ocupação de instituições quer na ocupação das casas. Às vezes com muitos problemas porque, em determinada altura era impossível controlar o desejo das pessoas terem casa, mas este foi um processo extremamente importante.

SR

– A ocupação da panificadora ocorreu já depois do 11 de Março. Parece-lhe que com o 11 de Março as coisas mudaram?

CC

– De facto, depois do 11 de Março houve uma maior abertura para situações deste género. Recordo-me de uma vez em que estava num local, a ter uma conversa com o então Primeiro Ministro, Vasco Gonçalves, onde uma Comissão de Trabalhadores falava de intervenção na empresa. E então ele disse: “Vocês ocupem que depois mandamos lá o COPCON e põe isso no lugar”. Havia uma grande saída dos grupos de esquerda para o terreno para tentar ganhar espaço, dado o erro táctico da direita. Mas depois não sei, porque as vitórias de hoje são as derrotas de amanhã e foi de vitória em vitória que chegámos ao 25 de Novembro.

SR

– o Verão Quente foi um período muito atribulado. Temeu que pudesse ocorrer uma guerra civil?

CC

– Sim, a guerra civil esteve muito próxima. Tinha consciência do que se estava a passar e, quando se deu quer o 28 de Setembro quer o 11 de Março, nós tínhamos planos conjuntos com oficiais das Forças Armadas, no sentido da resistência caso fosse necessário. Havia um plano para recuarmos até à Serra da Arrábida, por forma a proteger o Alentejo. De qualquer maneira, houve sempre a grande preocupação de tentar evitar essa situação. Isto de uma forma diplomática e política, tentando discutir as situações e, por vezes, não levando tão longe determinados casos só para não provocar conflitos. A guerra civil de Espanha estava muito presente na nossa memória e queríamos evitar isso a todo o custo.

SR

– Que repercussões poderia ter, para o país, um recuo das forças de esquerda para a Serra da Arrábida?

CC

– Essa era uma situação limite que só aconteceria se alguém, que não nós, lançasse as sementes de uma guerra civil. E nessa altura, ou resistíamos ou éramos mortos. Mas como disse, sempre tentámos evitar isso, havia muito diálogo entre a esquerda e elementos da direita, no sentido de evitar conflitos. Aliás, o grupo dos nove é a prova declarada dessa tentativa definitiva de não avançar para a guerra civil. E no 25 de Novembro a guerra esteve por um triz e foi evitada. Com muitos custos e muito grandes, mas a guerra civil foi evitada.

SR

– Concorda com a ideia de que o 25 de Novembro democratizou o país?

CC

– Não creio que tivesse sido. É muito complexo fazer uma análise desse período, mas penso que o 25 de Novembro foi um travão ao avanço de um poder mais directo do povo. Na altura, o grande papão era o PCP e as pessoas tinham medo do que o PCP pudesse fazer. Éramos tão ingénuos que nem sabíamos que em Helsínquia tinha sido feito um tratado, no âmbito da Guerra Fria, que atribuía Portugal à NATO e Angola à URSS, ou seja, ao Pacto de Varsóvia.

E assim, não havia hipótese nenhuma do país avançar. Não creio que o 25 de Novembro tivesse promovido a democratização do país, antes pelo contrário, na génese dele estava um golpe de direita que se queria sanguinário e que foi travado por uma pessoa que eu demorei muito tempo a perceber: o Salgueiro Maia, para além de Melo Antunes. Foram eles que travaram a direita, nessa altura. Salgueiro Maia teve uma posição admirável quando entrou em Lisboa, no 25 de Novembro, e foi cercar o Ralis que não ofereceu resistência. Eles passaram e foram para o depósito de armamento de Beirolas.

Aí informaram o comandante de Beirolas da razão que os levava ali, se ele quisesse entregar-se muito bem, mas se não quisesse que ficasse ali quieto. E é esta posição inicial de Salgueiro Maia que trava a dinâmica do golpe de direita. Ele trazia os tanques de Santarém, portanto tinha uma força considerável. Depois havia a facção política comandada por Melo Antunes. À noite fizeram uma declaração que travou o golpe da direita. O reconhecimento que Salgueiro Maia teve foi aquilo que todos nós sabemos, a direita nunca lhe perdoou Ter travado o golpe. Mas se estes dois homens não tivessem tomado medidas, iríamos parar a um autêntico banho de sangue.

SR

– Se o PCP era considerado o bicho papão, como é que era vista a extrema esquerda?

CC

– Na altura a extrema esquerda era composta por grupos bem intencionados, cheios de uma ideologia novinha em folha, mas com um fraco poder organizativo e fraca implantação nas massas. A extrema esquerda era muito composta por estudantes saídos das ideias de Maio de 68, uns directamente e outros por interpostas situações. Eram muito bem intencionados mas não havia poder e muito menos a proximidade que o PCP tinha ao mundo do trabalho. Por outro lado, à excepção do MRPP, por muito revolucionários que fossem, todos os indivíduos eram filhos ou órfãos ideológicos do PCP.

Portanto, o PCP tinha de facto um poder muito grande, quer pelas suas posições quer pelo seu historial, junto das pessoas que gostavam dele e também entre os que não o aceitavam. Isto é um pouco como eu, que não sei se sou ateu se sou agnóstico, mas tendo sempre a reagir de acordo com a matriz cristã que me foi inculcada. E aqui, o PCP foi, de facto, o pai e a mãe dos indivíduos de esquerda deste país. O MRPP é uma excepção porque é uma situação diferente, trata-se de um grupo de intelectuais vindos, sobretudo, da Faculdade de Direito, e com uma transposição do ideário maoista que é um erro sociológico tremendo.

Ou seja, num outro país e numa outra cultura como é o caso da nossa, as coisas não se conseguem importar dessa maneira. A extrema esquerda lançava as situações e obrigava o PCP a tomar posições, porque os comunistas eram bem mais conservadores neste aspecto. Se teriam razões para isso ou não, já é outra discussão, mas era um facto. Aliás, um pouco como hoje faz o Bloco de Esquerda que, não tendo poder, está à frente com as ideias e espicaça os outros em situações em que devem contar com eles. Era um pouco como nós fazíamos porque o poder exacto era coisa que não tínhamos.

SR

– À distância de 25 anos, como é que vê esse período da sua vida?

CC

– Foi um período extremamente bonito, gostei muito embora tenha passado por algumas situações complicadas em termos profissionais. Nessa altura já era um quadro de empresa e estava ligado a movimentos revolucionários e a comissões de trabalhadores. Aliás, se não fiz a primeira fiz a segunda ou terceira comissão de trabalhadores na área das construções técnicas. Foi um tempo de que gostei muito e não me arrependo de nada do que fiz, pelo contrário, foi uma experiência que me enriqueceu extraordinariamente a vida e as perspectivas, hoje estou muito distante desse tipo de ideias mas essa foi a estrada que me conduziu ao que sou hoje.

SR

– Está distante por já não acreditar na força que o povo tinha?

CC

– Desta forma não. Hoje temos uma conjuntura mundial diferente, temos um mundo globalizado. Já antes era assim, quando lhe disse que Helsínquia decidiu como é que as coisas funcionariam. Mas hoje as coisas estão ainda mais diferentes, é uma época em que o poder político cede lugar ao poder económico, onde temos empresas com orçamentos maiores que de alguns estados e que, de facto, definem como as coisas vão funcionar. De certa forma, o poder político tem de ceder ao poder económico.

SR

– Alguma vez pensou que o cenário actual poderia ser este?

CC

– Não, se assim fosse não me teria empenhado da maneira como me empenhei. Acreditei que fosse uma coisa bem diferente. Hoje não acredito nisso mas continuo a pensar que vale a pena lutar por determinados valores. Tenho muitas contradições na minha vida, até a profissão que exerço me põe do outro lado, ou seja, caí nalgumas contradições mas continuo a acreditar que existem valores fundamentais como o da igualdade, da dignidade das pessoas e, se a justiça não é possível, que pelo menos a dignidade o seja.

Entrevista de Pedro Brinca
[email protected]