[ Edição Nº 120] – Campanha eleitoral para a Assembleia Constituinte.

0

Edição Nº 12017/04/2000
25abril2-4466016

MEMÓRIAS DA REVOLUÇÃO
25 anos depois

(Campanha eleitoral para a Assembleia Constituinte)

Campanha para a Constituinte agitou Setúbal

MDP caiu depois das eleições de 1975

          A terceira semana de Abril de 1975 apanhou o distrito de Setúbal numa efervescente campanha eleitoral tendo em vista as primeiras eleições após o golpe militar de 1974. Eram as eleições para a Assembleia Constituinte, cujos deputados iriam ter por missão elaborar a primeira Constituição da República num regime democrático. No leque de partidos concorrentes estava o MDP/CDE, um movimento unitário que teve de se legalizar como partido para concorrer ao acto. Muitas vezes confundido com o PCP, por conter nas suas fileiras muitos comunistas de gema, o MDP acabou por obter resultados frustrantes e elegeu apenas um representante. 25 anos depois da campanha que terá marcado o princípio do fim do MDP, um dos candidatos por Setúbal e actual vereadora do PCP na câmara sadina, Regina Marques, recorda a importância deste movimento na dinamização das populações e diz-se mesmo convicta de que o que faz falta ao país é um movimento unitário que atravesse os partidos.


Setúbal na Rede

– Onde é que estava na terceira semana de Abril de 1975?

Regina Marques

– Estava em Setúbal, em plena campanha eleitoral, pois era candidata pelo MDP/CDE às eleições para a Constituinte. A lista por Setúbal, que era encabeçada por uma pessoa do Barreiro, tinha gente de praticamente todo o distrito. Nós estávamos divididos em grupos e eu estava no grupo responsável pela campanha em Setúbal e em alguns concelhos do litoral alentejano. Nessa altura havia uma grande vivacidade, tínhamos reuniões distritais de candidatos e preocupávamo-nos muito em motivar as pessoas para o voto. Havia também a grande preocupação de aglutinar muita gente em torno de projectos ligados à melhoria das condições de vida das pessoas.

SR

– Como é que decorreu a campanha eleitoral para as primeiras eleições após a revolução de Abril?

RM

– Fizemos muitíssimas sessões de esclarecimento, muitos documentos de rua e muitas acções junto da população. Foi a primeira vez que se fez uma campanha aberta depois do 25 de Abril e, na verdade, a nossa forma de agir era de muito trabalho e de muito contacto com as pessoas.

SR

– No entanto, pode dizer-se que o resultado dessas eleições não foi o que o MDP esperava?

RM

– De facto, houve uma certa decepção. Eu era novata nestas coisas mas lembro-me que o MDP não esperava o resultado que se verificou. Só conseguimos eleger um deputado, o Alfredo Monteiro, do Barreiro, e isso causou alguma decepção sobretudo nas zonas a norte do distrito, onde se esperava um resultado melhor. No entanto, o distrito deu uma votação muito clara de esquerda e o PCP teve a maioria dos votos. O PPD/PSD tinha uma expressão mínima e o CDS praticamente nem se via.

SR

– Que interpretação é que, na altura, o MDP deu à vitória do PS nas eleições para a Assembleia Constituinte?

RM

– O programa do MFA apontava para o socialismo e as pessoas votaram no PS, um pouco porque o nome era mais óbvio que os dos outros partidos todos. Mas como é sabido, na altura todos os partidos tinham a palavra socialismo e a igualdade entre as pessoas nos seus programas e nos seus discursos. Estes eram projectos que todos acarinhavam, mesmo os partidos criados após o 25 de Abril de 1974. Aquela era uma época de euforia, de alegria e de entusiasmo, em que muita gente participava na resolução de problemas concretos.

Por outro lado, o PS não era aquilo que é hoje, porque actualmente percebe-se bem a sua aliança com o capitalismo. Naquela altura não era assim e acho que as pessoas votaram PS porque queriam socialismo e um partido que se afirmava contra o fascismo. Se calhar nessa altura os projectos de partidos como o PS e o MDP até não eram muito diferentes e as pessoas votaram para que essas propostas fossem levadas à prática.

SR

– Considera que o aparecimento de muitos pequenos partidos pode ter baralhado os eleitores?

RM

– De facto, foram criados imensos pequenos partidos e isso colocou logo problemas. Na altura sabia-se, mas o povo em geral não sabia, que alguns dos partidecos foram criados precisamente para criar confusão na cabeça das pessoas. Foi o caso do MRPP, onde alguns actuais dirigentes do PSD estiveram e com uma grande pujança. Tinham uma grande combatividade mas, no fundo, era uma combatividade contra a esquerda e não contra a direita.

E isso criou muita confusão entre as pessoas, porque não podemos esquecer que tínhamos saído de uma ditadura onde não era possível discutir abertamente as questões políticas e pela qual a maioria dos cidadãos era iletrada e não tinha o hábito de se informarem. De facto a revolução provocou uma manifestação de vontade e demonstrou-se que era possível fazer coisas. Construiu-se muitas escolas, fontanários e ruas e, ao nível das coisas concretas, as pessoas deram o seu melhor esperando que isso viesse a dar frutos do ponto de vista político.

Mas, de facto, os cidadãos não estavam habituados à discussão política. E estou em crer que aquela confusão entre tantos partidos trouxe problemas e algum descrédito à política. Por isso, muitas pessoas preferiram ir por uma linha mais conhecida já que para o socialismo todos queriam ir. Mas com o tempo o PS mudou de percurso e inflectiu bastante no que se referia ao seu projecto inicial.

SR

– No espectro partidário da altura, o que era o MDP/CDE?

RM

– Era um espaço unitário que congregava gente de muitas orientações políticas e partidárias. Quando aderi ao MDP ele era um movimento nascido antes do 25 de Abril. Era um movimento de unidade e concorreu às eleições de 1969 e de 1973. Ou seja, fazia oposição sem que houvesse um vínculo partidário. Por isso acreditei muito neste projecto de unidade entre pessoas que queriam construir um país. Depois saiu uma lei que dizia que os movimentos não podiam ser candidatos a eleições, pelo que o MDP teve de promover a discussão sobre este assunto e acabou por decidir transformar-se em partido.

SR

– Qual foi a importância do MDP no processo revolucionário?

RM

– Teve um papel fundamental na dinamização das populações do distrito. Mobilizámos as pessoas para a criação das comissões de moradores, das cooperativas de habitação, para as movimentações de construção de escolas e tudo o que se relacionasse com o bem estar das pessoas. No concelho de Setúbal, o grande exemplo foi o das cooperativas de habitação que não perderam tempo e fizeram logo imensas habitações sociais. Ainda hoje, algumas pessoas que vieram do MDP continuam dirigentes dessas cooperativas.

SR

– Os projectos e as acções do MDP entroncavam de tal maneira com os do PCP que muita gente os confundia. Afinal onde é que acabava um e começava o outro?

RM

– No meu caso, entrei naquele movimento unitário no sentido de construir, participar em coisas e concretizar algumas das aspirações das pessoas, como foi o caso da alfabetização. Tudo isso partiu muito do MDP também porque o MFA relacionava-se muito bem com este movimento, era como que o braço popular das Forças Armadas. Não sei como é que as coisas eram no PCP, naquela altura, mas ao MDP ia muita gente sem partido. Claro que quando o MDP teve de se transformar num partido, já muita gente tinha aderido a outros partidos. Antes podiam ser do movimento mas pertencerem a outro partido qualquer, ou seja, podiam participar nas acções do MDP mas estavam filiadas no PCP ou no PS.

SR

– Então, pode dizer-se que ao legalizar-se como partido o MDP deu um passo significativo para a sua própria extinção?

RM

– Sim, porque como as pessoas só podiam ter um partido muitos membros do PCP deixaram de participar e, eventualmente, muitos membros do PS deixaram de participar. Restaram as pessoas que não tinham partido e que queriam continuar, mas um projecto partidário já não é unitário. E de facto, já era preciso entrar numa participação mais regularizada e ter um projecto mais claro. Eu, por exemplo, comecei a não me sentir muito bem nessa relação e preferi deixar o MDP porque, sendo de outro partido, as coisas já não faziam muito sentido. Outros tentaram continuar mas depois também se identificaram mais com o PS. Às tantas aquilo deixou de ter sentido e o MDP acabou.

SR

– Quando é que começou o processo de decadência do MDP?

RM

– A decadência começou exactamente com estas eleições porque as pessoas que não tinham partido pensavam que havia muito mais capacidade do movimento unitário ir em frente. Mas de facto, cedo se viu que as pessoas acreditavam era em partidos. O resultado das eleições provou que se acreditava mais em partidos do que no MDP.

Continuo a acreditar que o movimento teria vida se continuasse a ter a capacidade de congregar gente para fazer as coisas, no entanto, a partir do momento em que se tornou um partido as coisas complicaram-se, não dispunha de espaço próprio e não foi capaz de o criar, portanto foi desaparecendo. Não sei exactamente quando acabou mas lembro-me que sai do MDP em 1976, altura em que aderi ao PCP. Depois disso o MDP ainda existiu durante algum tempo e parece-me que ainda concorreu a mais eleições.

SR

– Um projecto unitário como o do MDP ainda faz falta ao país?

RM

– Faz muita falta. As pessoas devem movimentar-se independentemente dos partidos a que pertencem e devem criar as suas organizações específicas porque há assuntos que atravessam todos os partidos. Temos que valorizar a movimentação dos cidadãos pelos seus direitos e pelos seus interesses e, muitas vezes, os partidos ou estão com uns ou estão com outros.

SR

– O trabalho da Assembleia Constituinte, eleita em 25 de Abril de 1975, foi importante para a democratização do país?

RM

– A Constituição da República, elaborada pela Assembleia, foi um marco fundamental para o país. A Constituição, que foi depois aprovada em 1976, era extremamente progressista e consignava o socialismo. Aliás, os partidos que lá estavam votaram a favor disso, nomeadamente o PS e o PSD, só o CDS é que votou contra. No que toca a direitos, como os direitos individuais dos trabalhadores, os direitos de organização e os direitos das mulheres, foram dados passos gigantescos. E por isso mesmo era considerada a Constituição mais progressista da Europa.

SR

– 25 anos depois da eleição da primeira Assembleia, o que é que o distrito ganhou com as representações que elegeu?

RM

– Não podemos ver a evolução do distrito desligada dos acontecimentos políticos que entretanto foram ocorrendo. E o certo é que os nossos deputados nunca foram suficientes para contrabalançarem os das outras regiões do país. Mesmo assim, o distrito de Setúbal tem dado sempre grandes exemplos de contributos para a defesa da democracia. É em Setúbal que se têm dado as grandes lutas por causa de empresas que encerram e que despedem trabalhadores.

Houve também muita gente que deixou de trabalhar aqui para ir trabalhar noutros sítios por causa da destruição de muitas empresas e isso deixou marcas, o tecido económico alterou-se profundamente no distrito. Depois, o panorama político do país também foi alterado, incluindo os partidos que foram mudando de discursos à medida das suas conveniências. Portanto, o projecto desses partidos, nomeadamente do PS e do PSD, não tem nada a ver com o que fizeram na Constituição.

Eles fizeram-no porque as massas estavam na rua, porque as pessoas estavam a exigir coisas e a querer melhorar o país. E por isso, gostava de retomar a ideia de que, quando a luta dos trabalhadores e do povo em geral é intensa, isso tem reflexos na Assembleia da República. Se as pessoas não exigem e não se mobilizam, há sempre uma tendência para esquecer as coisas.

SR

– Está desiludida com o rumo que o país tomou?

RM

– Não estou desiludida face aos ideais que defendo porque são ideais de paz e de igualdade. Eles ainda não foram atingidos mas também nunca pensei que se pudessem atingir de um dia para o outro. Isto faz-se com muito trabalho e continuo confiante de que é possível ir atingindo esses ideais, especialmente quando vejo municípios como o Barreiro, Almada e Seixal, que estão incomensuravelmente melhor.

Têm muito mais desenvolvimento, infra-estruturas e muito mais vida própria do que tinham antes da gestão autárquica comunista. Portanto, não me desiludo face à possibilidade de conseguirmos mais, nomeadamente em Setúbal. Na verdade, quando comparo Setúbal com um daqueles municípios não posso deixar de ver que o facto de Setúbal ser a cidade que é hoje – completamente descaracterizada e sem património histórico ou qualquer tipo de inovação – não tem a ver com as pessoas que aqui vivem mas sim com o tipo de gestão que tem sido feita ao longo destes anos.

E como os resultados eleitorais já mostraram que a CDU é alternativa ao PS na Câmara de Setúbal, nós estamos confiantes que poderemos vir a fazer de Setúbal, tal como de Montijo e de Sesimbra, aquilo que as pessoas merecem num distrito de gente lutadora e que sonha ter uma vida melhor. Setúbal é um distrito exigente e, de facto, é com pessoas rigorosas e exigentes que ele tem de ser gerido.

Entrevista de Etelvina Baía
[email protected]