CONECTARTE – EXCERTOS

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Entrevista de António Damásio, reconhecido cientista português a trabalhar nos EUA, a propósito do lançamento do seu novo livro ‘O Sentimento de Si', no seguimento do célebro ‘O Erro de Descartes”

Depois de, em 1994, nos questionar sobre o lugar da emoção n'O Erro de Descartes, António Damásio convida-nos, aos 56 anos, a procurar a origem da consciência de nós próprios com o seu novo livro, O Sentimento de Si (Europa- América ). Num diálogo quase íntimo, a partir dos sentimentos e das emoções, ‘entre o corpo e o cérebro’, explica-nos como conhecemos, e como sentimos que conhecemos, como revela nesta entrevista.

Jornal de Letras – N’O Erro de Descartes referia o papel regulador da emoção na racionalidade e nas decisões. N’O Sentimento de Si a consciência surge-nos, por sua vez, como reguladora das emoções e dos sentimentos. O Homem, perante a vida e a necessidade de sobrevivência, decide melhor, tendo conhecimento de que sente, tendo consciência das suas emoções?

António Damásio – Exacto. Este livro segue-se a O Erro de Descartes, da mesma forma que a investigação que está na sua base é um seu prolongamento. De certo modo, eu queria primeiro estabelecer uma ligação entre a emoção e a capacidade de decisão. mostrando como o próprio conhecimento, a própria capacidade de saber, dependem, no fundo, de um fundamento biológico e regulador, de que a emoção é um aspecto. Para sermos capazes de conhecer, para sermos capazes de sentirmos que existimos, que estamos vivos, que temos uma mente, sabendo que essa mente é nossa, é necessário fazer uma representação do nosso organismo e essa representação do organismo é feita através da representação do corpo no cérebro.

Aquilo que chamamos consciência é o estabelecer de uma relação entre um objecto – por exemplo, eu como objecto em si – e as modificações que ocorrem no organismo, ou durante o período em que você percebe o objecto. Só que o objecto pode estar no interior do seu próprio cérebro. Você pode, em vez de estar a olhar para mim, ir para casa escrever a sua entrevista e pensar em mim. Mas quando aparece a imagem daquilo que eu sou neste momento ela funciona como objecto, e esse objecto modifica o estado momentâneo do seu organismo. É  essa modificação que vai permitir este processo de mapeamento, na relação do objecto com o organismo, a partir do qual surge o conhecimento, que, por estar exactamente baseado numa modificação do corpo, surge sob a forma de um sentimento.

O título português, O Sentimento de Si, curiosamente, é mais feliz que o inglês (The  Feeling of What Happens). Junta dois conceitos chave. Por um lado a ideia do si, a ideia do indivíduo, e por outro a ideia do si ligada ao sentimento. O si não é uma palavra ou uma construção vinda do topo para baixo, é feita através da linguagem, de baixo para cima. Vem do sentimento, do corpo.

JL – Que tipo de relações podemos, então, estabelecer entre o sentimento e a

racionalidade?

A.D.- Uma coisa que é importante sublinhar: não há uma oposição entre emoção e racionalidade. Não é uma questão de escolha entre razão, emoção, lógica ou conhecimento. Nós precisamos de tudo. A emoção permite-nos criar um sistema de navegação automática que ajuda nas nossas decisões. Tanto você, como eu, temos vivido na nossa vida constantes situações em que perante um problema, escolhemos determinada decisão que tem consequências. Tanto  a situação que leva à decisão, como as consequências, são sempre vividas com um acompanhamento emocional. Se escolhe uma coisa que tem más consequências para si, vai sentir-se mal, vai ter emoções negativas, vai sofrer, vai ter medo, vai estar zangado. Há sempre uma relação emocional. Ou  as consequências podem ser magníficas, e vai ter alegria ou sentir a felicidade que advém dessa decisão.

Ao longo, da nossa vida nós estamos constantemente a criar parcerias de escolhas e consequências com certas emoções e a fazer uma categorização dessas relações. E aquilo que acontece, se o sistema funciona bem, é que quando é confrontado com uma situação do tipo daquelas que já viveu anteriormente, a máquina do seu cérebro dá-lhe muito rapidamente o sinal das emoções ligadas àquele tipo de situações.

JL – Neste livro interpela várias vezes o leitor. Foi uma “estratégia” usada para melhor explicar o próprio conceito de consciência?

A. D. – Digamos que é uma voz natural para mim. É a voz em que eu funciono em relação a um público não-especializado. A melhor forma de transmitir as ideias é através de um diálogo, de um interpelar directo do ouvinte e do leitor. E isso é extremamente importante num tema como a consciência. De certo modo força o leitor a olhar para si próprio. E isso é absolutamente necessário, porque as coisas de que eu estou a falar são abstractas no mundo do visível, mas concretas no mundo interior…

JL – Chega, inclusivamente, a convocar o quotidiano…  

A. D. – Exactamente. É uma maneira de pedir ao leitor para olhar os objectos que estão dentro de si. Porque se ele olha só para aquilo que está de fora, não vê, mas se olhar para dentro vê. Há um constante apelo: pare por um momento e pense nisto. E tenho a impressão que quando se pede esse esforço, obrigando o leitor a parar, este pode ver coisas, que de outra maneira, passavam ao seu lado, e não seriam, de todo compreensíveis.

JL – Apesar de procurar uma explicação biológica para a consciência, cita, entre outros, poetas como T.S. Eliot e John Ashberry. A poesia, a criação artística, já intuía, de alguma forma, as reflexões que encontramos em O Sentimento de Si?    

A. D. – Absolutamente. A razão porque há tantas menções sobre poesia, e algumas sobre cinema ou romances, é porque olho para a arte como um dos caminhos que permitem dar respostas às grandes perguntas sobre os seres humanos. É uma forma de conhecimento.

Em Florença, na biblioteca de Lorenzo de Médicis, há três escadas paralelas que se reúnem numa escada principal que dá acesso à biblioteca. É um desenho propositado da arquitectura, no qual as três escadas representam diferentes caminhos do saber. É assim que entendo a ligação entre ciência e arte. São caminhos diferentes para se chegar a algo próximo do que poderíamos chamar uma verdade sobre os sentimentos.  

JL – Até que ponto a poesia e a música acompanharam a escrita de “O Sentimento de Si” ?       

A. D. – Há poetas que estão muito presentes. Por exemplo, T.S. Eliot e Jorie Graham acompanharam de tal modo o trabalho, que acabaram por ficar na epígrafe. Depois há certos tipos de música que também estão presentes. Escrevo muitas vezes com música, quase sempre de câmara. Há certos compositores que permitem escrever, há certos compositores que não permitem escrever. Mozart é um dos que permite escrever, assim, como Bach. Já Beethoven ou Schubert, mesmo interpretado por uma pessoa magnífica como Maria João  Pires,  não permitem escrever. Somos obrigados a ouvir.  Há uma perturbação emocional que não permite o fluir da escrita.       

JL – Como cientista não esconde o seu interesse pelas artes. Para quando uma participação ou colaboração com esse mundo? 

A. D. – Essa possibilidade já surgiu e vai surgir. Vai ser uma colaboração que me dá imenso gosto.    

JL – Que manifestação artística esconde essa colaboração?

A. D. – É mais do que uma. Mas há qualquer coisa de muito interessante que se vai passar no futuro próximo. Será um pouco como a escada da biblioteca de Lorenzo de Medicis.Vai haver uma reunião de caminhos de saber.

In “Jornal de Letras”, 14/6/2000