[ Dia 23-05-2002 ] – CRÓNICA DE OPINIÃO por Titta Maurício.

0

e confortado com a conquista de mais um campeonato pelo meu Sporting,  e depois de, lúdica e infantilmente, ter celebrado a alegria (minha e dos meus filhos – que apesar da tenra idade, já viram, por duas vezes, o seu Sporting ser campeão!), queria voltar a falar sobre o jogo contra o Vitória: não ganhámos em Setúbal: paciência.

Porém, porque abomino e combato a hipocrisia do politicamente correcto, jamais poderei negar que era com prazer que teria visto a derrota do Vitória! Não só por torçer pelo Sporting e de dele ser sócio, mas porque, não obstante viver nesta região desde que nasci, o Vitória, apesar de ser o seu clube mais significativo, não merece o favor do meu apoio: é que o meu segundo clube (e do qual também sou sócio há mais de 30 anos) chamava-se CUF, já foi Quimigal, e é agora conhecido como Fabril do Barreiro! Também equipa de verde e branco, é um Grande clube e que Grandes vitórias alcançou para Portugal e para a Região!

Mas, gosto de futebol e a bem da Coerência e da Verdade, devo reconhecer que gostei, e muito, do jogo realizado pela equipa do Vitória! E mais gostei por a sua estrutura-base assentar em atletas formados no clube e com origem na terra. Por isso, como poucos, o Vitória encarna o espírito desta nossa região: tem imaginação, é combativo, tem personalidade própria e, principalmente, demonstra que, quando se aposta a sério nas pessoas da terra, a qualidade aparece. Porque ela está cá!

A CUF dos tempos gloriosos, por seu lado, conseguiu feitos que muito orgulharam os seus adeptos e todos os portugueses. Porém, e ao contrário do Vitória, a formação da sua equipa de futebol assentava numa política de contratações caracterizada pela importação de grandes figuras, em ocaso de carreira e que já só buscavam garantir um lugar ao sol para a velhice. Vieram as vacas magras, o dinheiro desapareceu e as grandes figuras rumaram a outros lugares! Essa política de contratações, provou-se, era profundamente errada e hoje, a CUF, penosamente, compete nos Distritais.

Mas porquê este excurso pelo futebol? Parece-vos pouco sério, quiçá infantil?

Não se o compreendermos e o aplicármos à política!

Parece difícil? Então vejamos: o nosso distrito, como a CUF, já foi politicamente mais importante, mas hoje, talvez devido à proximidade, tornou-se numa espécie de local de retiro para figuras nacionais que não interessam em Lisboa e/ou que estão em ocaso de carreira, que aparecem quando precisam e que, desconhecendo os problemas e as idiossincrasias locais, logo batem em retirada rumo a Lisboa, deixando nos militantes e simpatizantes um travo amargo que perdura por uma legislatura. São aquilo a que chamo os parapentistas da política, aqueles que pairando no alto do seu estatuto quasí senatorial, passam por cá mas nem pousam: vão directamente para Lisboa!

Tal é ainda mais visível em partidos com o menor dos mais relevantes resultados eleitorais do distrito. E, tal facto torna-se tão mais angustiante quanto parece próximo de  concretização a projectada reforma eleitoral: a emergência de círculos uninominais exigirá que os partidos apresentem os seus melhores, figuras local ou regionalmente Conhecidas, Respeitadas, Ideologicamente consistentes, Identificadas com os problemas das pessoas do seu círculo e com trabalho e capacidade próprias que lhes concedam um Peso Eleitoral Próprio. Tudo isto em círculos eleitorais a constituir numa região tão politicamente difícil como o tem sido Setúbal. E num distrito em que as Direcções Nacionais dos partidos sempre buscam levar os nossos melhores para Lisboa, secando as estruturas locais para, deste modo, poderem continuar a tratar os que cá ficam como torresmos.

A solução consiste em, temporariamente, voltar costas a Lisboa, arrumar a casa, fazendo uma aposta séria na revitalização das estruturas e na criação de uma cultura político-ideológica própria e clara. E, como dizem os brasileiros, “botar pra escanteio” todos os oportunistas e as novas aquisições da treta, de qualidade duvidosa e que, com modos marciais, mais não são que “cavalos de tróia” que nem servem nem a gregos nem a troianos. Só assim as nossas estruturas partidárias poderão portar-se com a dignidade demonstrada pelo Vitória: ficar na Primeira, bater-o-pé aos Grandes e a ser um orgulho para as gentes desta terra!

Mas, deixem-me concluir falando sobre coisas agradáveis: Os 3 fins-de-semana passados. Só quem lá esteve é que sabe porque é que pelo Sporting ninguém fica em casa. A festa foi GRANDE, a festa foi LINDA, a festa foi VERDE! E, uma vez mais, o ESFORÇO, a DEDICAÇÃO e a DEVOÇÃO tiveram como consequência a GLÓRIA!! VIVA O SPORTING!!!