[ Dia 28-05-2002 ] – CARTAS DE MAREAR por Mendes Ferreira.

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28-05-2002 

CARTAS DE MAREAR
por Mendes Ferreira
(Ortopedista e Médico do Trabalho)

Salmão – Salmonete, Robalo – Robalet
ou a estupidez enlatada sem prazo de validade

Quem tiver a coragem de nos dias de hoje fazer o trajecto Setúbal-Palmela, ali pelas zonas de Aires e Volta da Pedra, acha que, por pouco dinheiro faz uma viagem inesquecível – o terceiro mundo aqui tão perto! E naquela cerca de uma hora que dura o trajecto de sete quilómetros tem tempo para pensar que, poupou muitos euros e uma arriscada viagem a outra terra de estupidez. E nem os litros de gasolina gastos inutilmente no ‘pára-arranca’ são mal empregados. Afinal está a contribuir para a melhoria do depauperado Orçamento, já que do que paga na bomba, a fatia mais gorda vai para os impostos que o Estado arrecada.. Para depois melhorar as estradas, claro!… E àquela hora do trajecto dá para o cidadão-herói ver coisas que só em lugares exóticos e atrasados julgaria poderem existir, ou há cinquenta anos em qualquer país civilizado.

A sua atenção e curiosidade é atraída para uma máquina de pescoço altíssimo, quase sempre parada e que, na realidade parece um dinossauro. Foi de certo desenterrada em qualquer escavação exploratória ao pré-histórico e, da sua utilidade pouco ou nada se sabe.

À sua volta ou por perto, três ou quatro indivíduos que, entre duas acendidelas de cigarro e quatro fumaças puxadas, conversam displicentemente – talvez sobre aquele monstro sobre rodas apelidado de máquina – quiçá!!

Completando o quadro, dois elementos vestidos à semelhança da GNR, de mãos nos bolsos, ou abrindo a boca representam com naturalidade a inutilidade da sua actuação. Ventres proeminentes, lembrando aqueles doentes com ascite provocada por qualquer cirrose hepática, recordam por semelhança da farda aquela brilhante e heróica força – a Guarda Nacional Republicana que com sacrifício da própria vida e uma enorme abnegação protege até ao limite o cidadão e os seus haveres! – De facto a farda parece igual.

Mas, naquela hora do trajecto “andando parado” dá para ver que ao longo de muitas semanas, alguns, não muitos, metros de cano foram enterrados. Quem se arriscar a desnecessárias viagens pelo mundo, verá quão estúpidos são os estrangeiros que, quando querem fazer uma obra semelhante ou ainda maior contratam imenso pessoal, utilizam máquinas modernas, trabalham dia e noite, domingos e feriados e acabam aquilo de um dia para o outro. E vejam lá, segundo dizem, para não chatear o cidadão! Atrasados! Depois… ficam sem nada para fazer. E nem turistas os visitam para ver e fotografar como se via há cinquenta anos!

Aqui, neste rectangulozinho, a passo de caracol e velocidade de lesma, as coisas são diferentes e muito mais poéticas. Aqui neste cantinho à beira mar plantado é onde tudo acontece. É aqui!

Onde o Primeiro Ministro é um “cherne”.

Onde o crime compensa, pois os criminosos escapam parecendo ‘enguias’. Onde alguns políticos parecem, ‘sardinhas’ em conserva já fora do prazo de validade. Onde há cada vez mais xicos espertos parecendo ‘carapaus de corrida’. Onde parece haver para aí um ‘peixe frade’ cheio de influência. Onde, onde muitos ‘peixinhos vermelhos’ deram cabo disto tudo nos gloriosos tempos. Onde as ‘piranhas’ se dão bem com os ‘tubarões’. Onde há tanto ‘mexilhão’ no dinheiro do próximo. Onde os incompetentes estão como ‘peixe n’água’. Onde há cada vez mais gente que ‘nem é carne nem é peixe’. Onde as negociatas de determinado desporto mais se assemelham a um ‘polvo’. Onde os problemas não se resolvem de frente, mas às arrecuas como o ‘caranguejo’. Onde em vez de acção só há ‘linguado’. Onde tudo isto mais parece um circo onde impera o ‘peixe palhaço’. Onde a discussão de assuntos sérios às vezes mais parece uma ‘peixeirada’.

Onde os problemas em vez de se resolverem com inteligência se resolvem à ‘solha’.

País onde apesar de tudo ainda há gente a quem se pode apertar o ‘bacalhau’. Mas cuidado, muito cuidado, ou pomos na ordem esses pescadores de ‘água turva’ ou podemos estar metidos numa grande ‘caldeirada’.
É que ninguém está interessado em que por aqui apareça um ‘gambozino’ qualquer com um ‘cavalo marinho’ na mão. seta-2842188