[ Dia 06-09-2004 ] – Carvalhas critica Sampaio por não ter convocado eleições antecipadas

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Carvalhas critica Sampaio
por não ter convocado eleições antecipadas

Carlos Carvalhas garante que o PCP “vai lutar pela queda do Governo de Santana Lopes”. No discurso do comício de domingo, na Festa do Avante, que decorreu na Quinta da Atalaia, no Seixal, o secretário-geral do PCP, criticou o Presidente da República, Jorge Sampaio, por não ter convocado eleições antecipadas quando Durão Barroso foi para Bruxelas. Pela primeira vez, numa edição da Festa do Avante, Sampaio foi assobiado pelos milhares de comunistas que assistiram ao comício. Para o responsável da Direcção da Organização Regional de Setúbal (DORS) do PCP, Jorge Pires, foi uma reacção “natural” porque a decisão do presidente “ainda está muito fresca na memória dos portugueses”.

A ”estrondosa derrota” da coligação PSD-PP nas eleições europeias, juntamente com o “descrédito” em que se encontrava o Governo e a “crise política” provocada pela saída de Durão Barroso, eram os ingredientes necessários para eleições legislativas antecipadas. Mas, “contrariando os sentimentos e as aspirações dominantes da opinião pública, dos trabalhadores e das forças democráticas e de esquerda”, o Presidente da República tomou uma posição “inaceitável”. A não convocação de eleições legislativas antecipadas constituiu, no entender de Carvalhas, um “sinal de apoio” à maioria de direita e “à continuação de uma política comprovadamente incapaz de responder aos problemas do país”.

O líder do PCP lembrou ainda Sampaio que o seu poder de dissolução da Assembleia da República termina no Verão do próximo ano que vem. No entanto, Carvalhas espera que antes dessa data os portugueses fiquem “livres do pesadelo de uma governação incapaz, agressiva e reaccionária”. Para tal, garante que o PCP tudo vai fazer para “encurtar o tempo de vida deste Governo”. Jorge Pires acrescenta ao “Setúbal na Rede” que o país “vive um sentimento de frustração” em relação à decisão de Sampaio, pois ela “condiciona as expectativas para os próximos dois anos”.

Para Jorge Sampaio fica ainda um recado em jeito de desafio. Carvalhas lembra que o Presidente da República prometeu que “este ano não ficaria calado”, caso se repetisse a tragédia dos incêndios que devastou o país em 2003. Por isso, sugere a Sampaio que se desloque em presidência aberta pelas áreas ardidas neste Verão, entre as quais, a Serra da Arrábida. O líder comunista diz que “foi um erro ter-se reduzido as verbas para o Parque Natural da Arrábida”, para além de “não se ter considerado o Algarve como zona de risco”.

A “falta de meios de vigilância” para uma resposta atempada, a “incrível descoordenação” e “a não existência das cartas de risco”, são apontados como erros repetidos. Depois de, no ano passado, “se ter apurado a falta de coordenação e as dificuldades de comunicação entre corporações de Bombeiros, as comunicações e a coordenação falharam de novo este ano”, refere Carvalhas. O secretário-geral do PCP diz ainda que “continua a não haver um sistema mínimo de comunicações compatível e harmonizado”.

Numa análise aos primeiros meses de governação de Santana Lopes, Carlos Carvalhas considera que este Governo já mostrou “a completa falta de consistência e credibilidade da solução facilitada pelo Presidente da República”. Criticou a “descentralização à Santana Lopes” de alguns gabinetes de secretários de Estado, bem como os “conselhos de ministros itinerantes”, numa alusão ao facto de se realizarem, semanalmente, num diferente ponto do país.

Carvalhas compara o Governo PSD-PP a uma “agência de publicidade” chamada “Santana & Portas, S.A.”. Isto porque, no entender do comunista, “o que na verdade faz correr o primeiro-ministro é a sua promoção, é a sua imagem, é vender promessas e planos, é enaltecer qualquer medida pontual ou qualquer obra”.

Carvalhas criticou ainda o comportamento do Governo em relação ao “barco do aborto” da organização “Women on Waves”. O líder do PCP defende que, apesar de terem mudado algumas caras no Governo, “não mudou o reaccionarismo, o autoritarismo, a mesquinhez e o ridículo”. É que “chegou-se a este ponto inacreditável” de o ministro Paulo Portas, “com a benção de Santana Lopes”, ter utilizado a Marinha de Guerra para impedir a entrada nas águas territoriais portuguesas deste barco.

Mas Carvalhas acredita que Santana Lopes, que se tem mostrado “tão preocupado em afastar-se da herança de Durão Barroso”, tem aqui uma “oportunidade para mostrar a diferença”. Por isso, desafia o primeiro-ministro a “acabar com a hipocrisia”, dar “o seu acordo à alteração da lei e do artigo 140º do Código Penal” e aprovar o Projecto de lei do PCP. Carvalhas defende que “é tempo de se acabar com as teias de aranha e a hipocrisia nesta matéria”, e garante que o PCP vai continuar “o combate às concepções reaccionárias da maioria” até que, “como é justo, necessário e indispensável, a Assembleia da República aprove uma lei de despenalização do aborto”.

Para o responsável do DORS foi “um grande comício” com milhares de pessoas “a interagir no discurso político”. Jorge Pires caracteriza o discurso de ontem como “bem construído” e que abordou “os temas actuais como a abertura do ano escolar, o aborto e a economia”. A forma “irónica” com que Carvalhas discursou “agarrou as pessoas”. A atitude política de Pedro Abrunhosa durante o concerto “já é tradicional” e agradou a Jorge Pires. Trata-se de um artista que “marcou a luta juvenil durante o período cavaquista” e que “nunca deixou de expressar uma opinião sobre o país e a sociedade”.

Quanto à festa em si, Jorge Pires afiança que “correu tudo bem” e que decorreu “sem incidentes”. Além disso, “este sábado foi dos mais participados de todas as festas na Atalaia”. Este responsável destaca “a qualidade dos espectáculos musicais” que “reuniram o melhor da música portuguesa”. A vertente cultural do Avante “destacou-se pela qualidade”. Os visitantes “elogiaram muito” a Exposição dos “30 anos de Abril”.  

O discurso de Carlos Carvalhas demorou cerca de 45 minutos, ao longo dos quais se ouviram tradicionais palavras de ordem, como “a luta contínua” e “o povo unido jamais será vencido”. Este discurso fica marcado pela particularidade de os assobios a Jorge Sampaio, pela primeira vez numa edição da Festa do Avante, terem sido quase tão ruidosos quanto os assobios aos membros do Governo. A Festa do Avante prosseguiu na Quinta da Atalaia, no Seixal, e terminou algumas horas depois com os concertos dos portugueses Clã e Rui Veloso, seguidos do tradicional fogo de artifício.  seta-4200487