[ Dia 08-11-2004 ] – Francisco Rasteiro,presidente do concelho de administração da Carmonti

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EMPRESAS, MOTORES DE DESENVOLVIMENTO DA REGIÃO

Francisco Rasteiro, presidente do concelho de administração da Carmonti
“Ninguém se preocupa com a
fiscalização nem com a qualidade”

Sedeada no Montijo, a Carmonti é uma das três indústrias de carnes que restam numa região com tradição no abate e transformação de carne de porco e que chegou a contar com 28 unidades industriais deste ramo, tal como refere Francisco Rasteiro, presidente do concelho de administração da Carmonti. Em entrevista ao “Setúbal na rede”, o presidente declara que a produção e transformação de suínos estão em crise devido “aos preços demasiado baixos”, acusa os espanhóis de “concorrência desleal” porque mandam para Portugal a carne que “não tem qualidade para o seu próprio mercado” e aponta o dedo às autoridades portuguesas que “sabem o que se passa mas não tomam qualquer iniciativa”. Segundo Francisco Rasteiro, apesar da carne portuguesa ser “de boa qualidade” é o “preço que interessa ao consumidor” na hora de comprar. Sobre o facto de estas indústrias serem consideradas muito poluidoras, o presidente nega qualquer responsabilidade da sua empresa já que esta “foi das primeiras a ter uma estação de tratamento de águas a funcionar 24 horas”.

Setúbal na Rede – A carne que se consome em Portugal tem qualidade?

Francisco Rasteiro – No que se refere à carne de porco, a única sobre a qual posso falar, é boa na generalidade. A qualidade poderia aumentar se fosse implementada, em Portugal, a obrigatoriedade de castrar os suínos para abate. A lei está regulamentada mas nunca entrou em vigor e do meu ponto de vista era importante que isso acontecesse. A carne de um porco castrado é muito mais saborosa.

SR – Porque é que a lei não está em vigor?

FR – Essa é uma boa pergunta para fazer à Direcção Geral de Veterinária, aliás já foi feita e gerou polémica. É que a carne de porco é paga ao produtor em função da percentagem de carne magra e os porcos castrados têm mais gordura que os outros, logo têm menos valor económico. Por outro lado, a carne de porco castrado tem mais qualidade e eu estou convencido de que, se a lei entrasse em vigor, o consumo de carne de porco aumentava.

SR – Quando compramos carne de porco temos forma de saber se o animal foi ou não castrado?

FR – Não tem forma de saber, muito menos se for leigo no assunto.

SR – Que pressões têm sido feitas para que a lei entre em vigor?

FR – Temos incentivado os nossos fornecedores a castrarem os seus animais e já temos alguns a fazê-lo. A maioria dos talhos e supermercados, ao saberem que temos carne de porcos castrados, preferem essa carne, ainda que ela não chegue para todos.

SR – Essa questão poderia ser resolvida através da união de várias indústrias?

FR – Essa é uma questão que tem que ser resolvida na “fileira do porco” e isso inclui os industriais e os produtores. Como a maioria dos produtores, em especial as federações, estão contra isso, acaba por ganhar a maioria. Acredito que esta não seja uma batalha perdida mas vai demorar alguns anos. Quando as pessoas se habituarem a ter à sua disposição carne de porco castrado e inteiro, o inteiro vai deixar de se vender e terá que ser tomada uma decisão.

SR – A solução passa por fazer chegar a informação ao consumidor?

FR – Sim, mas é uma situação complicada porque o consumidor ainda valoriza o preço em detrimento da qualidade. A carne de porco castrado teria que ser mais cara porque tem mais qualidade.

SR – O consumidor prefere o preço à qualidade?

FR – Neste momento de crise essa é uma realidade. Além disso, as grandes cadeias comerciais têm mais interesse no preço do que na qualidade. Em Espanha, as grandes superfícies já exigem qualidade e a carne que nós importamos de lá é a que eles não querem. Em Portugal recebemos tudo, não há qualquer tipo de controlo. As entidades oficiais sabem o que se passa, mas ninguém faz nada porque não há pessoas suficientes para fiscalizar.

SR – Neste momento já existem leis que obrigam a carne a estar identificada e a ter determinados padrões de qualidade.

FR – Sim, nos porcos não é tão rigoroso mas nos bovinos vai até à origem do animal. Os porcos são tatuados nas orelhas e têm os carimbos do matadouro, mas não existe fiscalização.

SR – A que mercado se destina a produção da Carmonti?

FR – A nossa produção destina-se a todo o país. Temos o mercado de carne fresca com as diversas zonas a quererem produtos diferentes e temos o mercado dos transformados que tem maior incidência no norte do país. Não comercializamos os nossos produtos junto à fronteira porque é uma região quase deserta e ainda sofremos a concorrência desleal dos espanhóis. Posso afirmar que os espanhóis estão a mandar presuntos com um mês para o mercado nacional, algo que é impensável. Os produtos bons da produção espanhola destinam-se ao seu próprio mercado. O presunto Pata Negra que vem para Portugal é muitas vezes um produto adulterado que nada tem a ver com o original. Os produtores espanhóis estão a produzir porcos com qualidade para o seu mercado e porcos sem qualidade para o mercado português. Aqui ninguém se preocupa com a fiscalização nem com a qualidade.

SR – Essa situação afecta a actividade da Carmonti em termos concorrenciais?

FR – Afecta, não só as industrias de carnes, como a própria suinicultura. Os espanhóis têm custos de produção inferiores aos nossos, têm ajuda dos governos regionais e nós não temos nada.

SR  – Esta é uma actividade que tem sentido muito a crise? 

FR – Em Portugal, o consumo de carne de porco per capita tem vindo a aumentar. O problema das vacas loucas e os frangos com nitroforanos levaram à diminuição imediata do consumo de todas as carnes, sendo que as que não estão afectadas acabam por recuperar. Nessa perspectiva a carne de porco tem sido beneficiada. Por outro lado, o porco também está muito barato, o produtor não consegue cobrir as despesas e a descida de preço afecta toda a Europa. Os novos países que entram para a União Europeia estão a importar as peças que nós não consumimos, como as gorduras, mas por outro lado exportam as peças nobres.

SR – De que forma é que as alterações da Europa afectam a actividade da Carmonti?

FR – Quando entrámos para a Comunidade eu fui uma das pessoas que defendi o mercado livre, mas era necessário que as regras fossem iguais para todos. Umas peças que são muito valorizadas em Espanha são os lombos de porco com costeletas. Se eu quiser mandar para lá um camião com estes produtos posso fazê-lo, porém ser-me-ão colocados mil entraves. Em Portugal não são colocados nenhuns entraves e as autoridades sabem o que se passa.

SR – Os fornecedores da Carmonti são da região?

FR – 95% dos porcos que abatemos são da região, mas temos também um produtor de Pombal e por vezes também um da região de Santiago do Cacém.

SR – Esta região mantém o jus da fama de grande produtora de porcos?

FR – Há alguns anos eu afirmei que o Montijo se iria tornar num dormitório de Lisboa e essa é a nossa realidade actual. As indústrias que existiam aqui têm vindo a desaparecer. Éramos o maior produtor de cortiça, agora estamos reduzidos a meia dúzia de fábricas, chegámos a ter 28 indústrias de carnes, restam apenas três e apenas dois matadouros. As adegas e as cerâmicas que existiam no Montijo também desapareceram.

No que se refere aos porcos, a inspecção sanitária é das mais rigorosas do país. Temos suiniculturas fechadas no Montijo que têm as mesmas condições que outras abertas no resto do país. Com a valorização dos terrenos no Montijo alguns produtores de suínos optaram por encerrar as suas explorações, enquanto outros as transferiram para longe. Em termos de produção ocupávamos o primeiro lugar a nível nacional, mas hoje estamos em terceiro ou quarto lugar e o mesmo acontece no abate.

A indústria das carnes localizou-se no Montijo porque a principal produção de suínos se situava no Alentejo, os animais vinham de comboio para o Montijo, eram abatidos e enviados já em peças para Lisboa. Actualmente, com a melhoria da rede viária, é indiferente enviar os porcos para o Montijo ou para qualquer outro local, pelo que surgiram outras alternativas. Para agravar mais a situação, a região de Montijo tem um péssimo clima para esta indústria, pois é demasiado húmido.

SR – Perante o cenário de encerramento de várias industrias da região, qual o futuro que prevê para a Carmonti?

FR – Não sei, está tudo em evolução constante, nós tentamos acompanhar as últimas tecnologias mas para investir é necessário dinheiro. Dentro do panorama de crise actual, este não é um negócio rentável. As grandes superfícies praticam preços com os quais é impossível competir, vendem abaixo do preço de custo ainda que se sujeitem a pagar multas por isso, mas na realidade quem perde é quem fornece, ou seja, o produtor. Como não existe uma empresa dominante neste ramo, que seja capaz de impor condições, acabamos por ter de nos sujeitar.

SR – A fusão de empresas não seria uma solução?

FR – É de facto uma solução e na realidade a Carmonti resulta da união de sete empresas do Montijo, porém não temos cota de mercado para impor condições. A Carmonti é o somatório dos sócios de sete pequenas e médias empresas da região, estamos no limiar entre a média e a grande empresa, facto pelo qual estamos a ser muito penalizados.

SR – Esta é uma empresa em risco de fechar?

FR – Não devemos nada a ninguém, sejam funcionários seja o Estado. Não estamos em risco de fechar, mas de momento não temos dinheiro para investir e não sou de me lançar em aventuras arriscadas. Quando iniciámos a nossa actividade éramos um conjunto de pequenas empresas que facturávamos cerca de 500 mil contos por ano no conjunto e quando as empresas se agruparam, em 1986, obtivemos a mesma facturação em apenas seis meses. Actualmente o nosso volume de vendas ronda os três milhões de contos, mas apesar de termos aumentado, no ano passado e neste ano, o número de abates, como o preço é muito baixo, esse aumento não se repercute no nosso volume de vendas.

SR – Esta é uma actividade que necessita de muito investimento em tecnologia?

FR – No sector de embalagem temos evoluções constantes de equipamento. Mas nem sempre é possível estarmos actualizados já que falamos de equipamentos que custam milhares de contos.

SR – E em termos de protecção do ambiente?

FR – Quando nos juntámos fomos o primeiro grupo de empresas a ter uma estação de tratamento a trabalhar 24 horas por dia. Entretanto, utilizávamos a nafta como combustível e passámos para gás natural. Por vezes registam-se avarias na estação de tratamento e temos que fazer algumas descargas para os esgotos, já que consumimos 300 metros cúbicos de água por dia, mas são situações muito pontuais. Temos todos os cuidados, mesmo com as gorduras. Também temos uma exploração de suínos aprovada pelo ambiente, onde temos três piscinas revestidas a betão e se todos tivessem os mesmos cuidados esta actividade não traria qualquer problema ao ambiente. Posso dizer que, quando o vento está do sul, o cheiro que vem da ETAR construída pela autarquia aqui perto de nós é bem mais poluente que a nossa actividade.

SR – Mas esta é uma actividade que muitas vezes é notíciada pelo desrespeito pelo ambiente.

FR – Não temos nenhum problema desses, pois a água que sai da nossa estação de tratamento, apesar de ser escura, não tem qualquer resíduo poluente. Raramente lançamos as nossas águas na linha de água porque as aproveitamos para regar, diminuindo assim a necessidade de adubo, uma vez que a água contém azoto.

SR – Esta é uma empresa bem integrada na região?

FR – Nós damo-nos bem com todas as pessoas e penso que estamos bem integrados. Costumamos colaborar com a Misericórdia do Montijo e com a Casa do Gaiato, a quem doamos produtos para a alimentação. Damos também apoio a colónias balneares, a várias corporações de bombeiros e juntas de freguesia. Em resumo, estamos disponíveis para ajudar quem precisa, dentro das nossas possibilidades. Temos boas relações com a autarquia, ainda que tenhamos algumas divergências, como por exemplo quando foi feita uma brochura sobre as actividades económicas do concelho e a indústria de carnes foi esquecida. Ainda que tenhamos menos peso que há alguns anos atrás, continuamos a ter importância nesta região. seta-1067006