[ Setúbal na Rede ] – PEDEPES – Ambiente

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No relatório do Diagnóstico Prospectivo o Ambiente foi interpretado como um Sistema Produtivo, do qual dependem os Sistemas Económico e Social. Entre os três, existe uma relação interactiva de dependências, que se consubstancia num circuito de fluxos de bens e de serviços que transitam de um para os outros.

A metodologia de análise utilizada foi a seguinte:

  • Seleccionaram-se 4 dos atributos ambientais que apresentam as relações mais fortes com os sistemas económico e social: Clima/Ar; Água; Paisagem e Património Natural; Solo e Recursos Minerais;

  • Estudaram-se as Potencialidades de cada um deles, em função da sua importância natural, económica e social;

  • Analisou-se o estado actual dos atributos tendo em conta os usos que os outros dois sistemas deles fizeram, para tentar identificar as situações de ruptura dos fluxos inter-sistémicos;

  • Finalmente, hierarquizaram-se os factores que no futuro irão condicionar a evolução do Ambiente na Península de Setúbal.

A Península de Setúbal é particularmente rica em Paisagens e Património Natural. Mercê do seu clima e da sua localização, esta é uma das regiões do país e da Europa, mais rica em biodiversidade. Esta importância é reconhecida pelas instituições nacionais e europeias que gerem a conservação da natureza, uma das ferramentas mais eficazes para a prossecução dos objectivos de desenvolvimento sustentável. Para além das Paisagens e do Património Natural, a Península de Setúbal goza da vantagem de ser servida pelo mais produtivo aquífero do continente, o qual tem abastecido de água potável toda a região.

Relativamente à aptidão dos solos, a Península não apresenta uma vantagem evidente em solos tipo A e B. Se bem que eles existam, estão espalhados em manchas dispersas e dispõem-se preferencialmente em zonas de aluvião. Predominam fundamentalmente os solos com aptidão florestal. A Península é pobre em recursos minerais, com excepção das areias de alta qualidade da zona de Coina e dos calcários dolomíticos da Arrábida.

Em resumo, pode-se afirmar que a grande riqueza ambiental da Península de Setúbal foi gerada pelo casamento de dois factores: localização geomorfológica e clima. O resultado foi um património natural notavelmente rico em termos paisagísticos e em biodiversidade.

Estes importantes atributos ambientais, têm sido largamente utilizados pelos sistemas económico e social. O Clima, a Paisagem e a diversidade de ecossistemas têm alimentado a indústria turística da Península e as actividades de recreio e de lazer das populações residentes, assim como da população da capital. Pelo facto de estar limitada a norte e a sul por dois dos mais ricos e maiores estuários da Europa e a leste pela costa Atlântica, a península e o país têm beneficiado de importantes recursos marinhos, que sustentam a actividade piscatória de dois dos mais importantes portos do continente. A Pesca é uma actividade com grande importância na base económica de alguns dos concelhos e desempenha um papel social não desprezável. Além da pesca, a região apresenta evidentes vantagens físicas para a Aquacultura, que aqui assume uma importância nacional evidente em matéria de área ocupada e da quantidade de pescado produzido.

Apesar de pesarem pouco na estrutura produtiva da região, a silvicultura e a indústria extractiva têm um papel importante na base económica de alguns concelhos. A primeira alimenta alguns dos mais importantes estabelecimentos nacionais de transformação de cortiça.

Até ao presente, a península tem-se abastecido da água do aquífero, para usos domésticos e económicos. Apesar de as potencialidades deste recurso estarem longe de terem sido ultrapassadas, constata-se todavia algumas situações pontuais de infiltração de águas salinas e de poluição, nas zonas em que o aquífero apresenta um maior índice de vulnerabilidade a este tipo de fenómenos. Se bem que estas ocorrências pontuais não sejam consideradas preocupantes, elas aconselham fortemente a que se faça uma gestão cuidada, no presente e no futuro, das captações, principalmente se se prever um cenário de grande procura de água. A degradação dos aquíferos é um fenómeno irreversível o que, no caso da península de Setúbal, se tal acontecer, pode constituir uma forte restrição ao seu desenvolvimento, principalmente se se vier a concretizar a alteração climatérica no sentido da diminuição dos índices pluviométricos.

Os usos que os sistemas económico e social têm feito dos atributos ambientais da península, estão na origem directa da diminuição da capacidade de auto-regeneração dos ecossistemas e da diminuição da rica biodiversidade. As situações mais preocupantes têm a ver com:

  • poluição grave das linhas de água superficiais, por efluentes domésticos, industriais, pecuários e com origem na poluição difusa; os casos mais graves são os dos efluentes dos estuários do Tejo e do Sado, o estuário do Sado e a Lagoa de Albufeira;

  • pressão sobre os solos RAN e REN e das áreas naturais em geral explicada pelo crescimento excessivo da procura de terrenos para urbanização, para construção de novas vias de comunicação e para a construção dos grandes recintos comerciais e de parques industriais;

  • diminuição da biodiversidade nas zonas húmidas, por poluição das linhas de água, alterações dos regimes agrícolas, pressão urbanística e das vias de comunicação, enxugo de terrenos e manutenção desadequada das margens;

  • pressão recreativa sobre as áreas de paisagem protegida;

  • sobreexploração dos recursos marinhos, no que resultou na diminuição dos stocks piscatórios;

  • pressão sobre o sistema socio-cultural tradicional relacionada com a proximidade da capital e a dinâmica do seu crescimento suburbano.

O futuro ambiental da Península de Setúbal está intrinsecamente ligado ao crescimento da área metropolitana de Lisboa e à capacidade/vontade das instituições, dos agentes económicos e das populações que a utilizam em aceitarem e aplicarem na prática, estratégias efectivamente eficazes de desenvolvimento ambientalmente sustentável.